Sri Pada - Em busca da pegada de Buda

10 Apr 2018

Este fim de semana começou com uma constatação que me deixou muito triste: perdi o meu caderno de viagens na última viagem!

 

Já tinha reparado há uns tempos que não sabia onde estava, mas não liguei muito porque ainda não tinha chegado à parte da viagem em que comecei a escrever nele (é o segundo caderno). Mas ontem, que queria ter continuado a escrever sobre a nossa viagem, fui procurá-lo a sério e não encontrei em lado nenhum. Comecei a pensar quando tinha sido a última vez que o tinha usado: no avião no regresso de Valência. Ainda fiz uma viagem infrutífera ao aeroporto, para procurar nos perdidos e achados. Agora tenho de me mentalizar que não vou voltar a ver o meu caderno, assim como todas as memórias da viagem ao Sri Lanka, Maldivas e Valência.Resta-me a minha boa memória [que não foi suficiente para me lembrar de trazer o caderno do avião] e as fotografias para a avivarem.

 

Agora que já me lamuriei, segue a viagem. Estávamos em Kandy apenas para apanhar o comboio para a prometida "viagem de comboio mais bonita do mundo".

 

Os bilhetes reservados, além de muito mais caros, ficam esgotados muito depressa em Kandy. E ter chegado no dia antes não era de todo suficiente. Fomos apenas meia hora antes do comboio para comprar bilhete em 2ª classe, sem lugar garantido.

 

Quando o comboio chegou foi um salve-se quem puder. Por sorte, conseguimos dois lugares separados, mas um rapaz trocou comigo a acabámos por fazer a viagem juntos. Apesar da viagem mais famosa ser de Kandy a Ella, nós fizemos esta viagem com uma paragem pelo meio: o Adam´s Peak ou Sri Pada. O nosso destino final era assim, Dalhousie, mas teríamos de sair em Hatton. 

 

A viagem, apesar do nevoeiro que estava, é realmente incrível. À medida que se vai entrando na montanha só se vê verde por todo o lado. Há árvores enormes, arbustos rasteiros, plantas floridas e montanhas que cortam o céu. Com o aproximar de Hatton começam os campos de chá. São montanhas e mais montanhas cobertas de plantas do chá, aparentemente em sítios inacessíveis, mas todos arranjados, apenas recortados pelos caminhos feitos para os trabalhadores circularem. 

 

Saímos do comboio e a prioridade foi encontrar um restaurante, o que não se revelou fácil numa aldeola perdida no meio do nada, segundo nos pareceu na altura. Perguntámos e apontaram-nos para uma estrada. Andámos mais de um quilómetro com as mochilas às costas, até que vimos uma placa e entrámos numa sala às escuras, com duas mesas e garrafas em prateleiras. Chamámos e esperámos imenso tempo até aparecer alguém. Lá apareceu um velhote que meio por gestos, meio por palavras perguntou se queríamos arroz e frango. Dissemos que sim e esperámos. Ele perguntou se bebíamos coca-cola, dissemos que sim para não complicar. Apareceu com águas porque não tinha coca-cola! Ainda fui à casa de banho da casa dos senhores e passei pela família toda a ver televisão na sala. Apesar do restaurante não ser bem um restaurante, a comida era óptima e ficámos muito satisfeitos.

 

Voltámos à estação de comboio para apanhar um tuk-tuk para Dalhousie. O dono da guesthouse tinha dito que a viagem deveria ficar em 1300 LKR e levamos esse valor à letra. Só entrámos no tuk-tuk quando conseguimos esse preço. Foi aí que descobrimos que a cidade ficava do outro lado da linha, onde haviam imensos restaurantes e movimento. O tuk-tuk era horrível. Não tinha amortecimento nenhum, sentiam-se todos os buraquinhos da estrada. Para piorar, era uma estrada de montanha, cheia de curvas e digamos que a condução deste senhor não era melhor que a dos outros.

 

O senhor ia parando em pontos mais turísticos, com paisagens bonitas, e, de cada vez que voltávamos ao tuk-tuk, ele tentava vender-nos um passeio, outro hotel.. Começou por dizer que o nosso hotel não existia, depois que não era bom. Quando, ao fim de uma hora, chegámos a Dalhousie, parou junto a um hotel e apareceu logo uma rapariga para nos mostrar aquele hotel. Dissemos que não queríamos, que íamos para o nosso. Insistiram em vermos primeiro aquele e depois decidirmos, exactamente como tínhamos lido no guia que faziam. Recusámos de forma mais peremptória e ele lá nos levou ao nosso, o The Olive.

 

Na verdade não era um hotel, era uma casa de uma família, com dois quartos para alugar, mas nessa noite éramos os únicos hospedes. O quarto era muito básico, mas a localização era maravilhosa, mesmo no início do trilho para o Adam´s Peak. E o jantar, feito pela dona de casa, estava também maravilhoso.

 

Chovia imenso quando chegámos e praticamente não parou até nos deitarmos pelo que estávamos na dúvida se iríamos conseguir fazer a subida. 

 

Segundo a lenda há uma pegada no topo desta montanha, que para os budistas é a pegada que Buda deixou quando deixou a terra em direcção ao paraíso - Sri Pada - e para os cristãos, é a primeira pegada de Adão quando chegou à terra - Adam´s Peak. Há ainda teorias semelhantes criadas pelos Hindus e outras religiões, mas aquelas são as mais conhecidas.

 

Na verdade, o Sri Pada é sobretudo um local de peregrinação dos Budistas. A época da peregrinação começa na primeira lua cheia de Dezembro e vai até Maio. É extremamente concorrida nas noites de lua cheia, onde se torna quase impossível chegar ao topo. Nós apanhámos ainda a época baixa, mas nos preparativos para a grande noite que se aproximava. Só víamos paletes de água a serem carregadas para todos os restaurantes. 

 

A subida, tipicamente é feita de noite para assistir ao pôr do sol já lá em cima. A subida são 7 km de degraus, que, dependendo da condição física das pessoas, pode demorar entre 2 e 4 horas. A chuva era o que mais nos assustava na caminhada. Não tínhamos roupa impermeável além do casaco e estava bastante frio. Portanto, estava fora de questão fazermos a caminhada com chuva.

 

Resolvemos pôr o despertador para as 1.45 e decidir na altura se íamos ou não. Quando tocou continuava a chover e desistimos, embora com alguma tristeza porque tínhamos ido até lá de propósito. Mas acordei por volta das 2.30 e percebi que já não estava a chover, que o barulho de água que ouvíamos era de um riacho ali ao pé. Vestimo-nos e saímos de lanternas na testa. À saída da casa desorientámo-nos no escuro e quando demos por nós estávamos do outro lado da aldeia. Voltámos tudo para trás e aí sim, iniciámos a subida.

 

A subida é dura, são mais de 5 mil degraus que vão custando cada vez mais. Para piorar, os degraus são todos de tamanhos diferentes. O facto de ser feito às escuras ajuda a não ter noção do que ainda falta, apesar de conseguirmos ver ao longe o contorno do pico lá bem longe. Em época alta as luzes estão acesas em todo o percurso, mas nesta altura só estavam acesas no início, onde estavam uns monges a porem-nos pulseiras com rezas e a pedirem donativos; e junto a alguns cafés ao longo do percurso. A escuridão tornava-se, por vezes, um pouco assustadora, especialmente quando parávamos para descansar um pouco, porque se ouviam imensos barulhos da natureza mas não víamos nada à nossa volta.

 

A fase final é extremamente dura. Os degraus são quase verticais. Demos por nós a subir 3 degraus e ter de parar para descansar. Vimos o nascer do sol no último patamar das escadas porque saímos mais tarde do que prevíamos. Conseguimos fazer a subida em menos de 3 horas. Quando chegámos ao topo ainda se viam uns raios de sol, mas rapidamente foram escondidos por um nevoeiro branco que, apesar de tapar a vista, também fazia um efeito espectacular. 

 

O topo do Sri Pada é um pouco estranho. Está cheio de edifícios e gradeamentos, o que não permite ter a noção completa que estamos no topo. Há um santuário onde está a suposta pegada, mas estava fechado por ser época baixa. Lá em cima praticamente só estavam turistas a recuperarem as forças e cães a tentarem ficar com a nossa comida. 

 

A descida foi ainda mais dura porque, a certa altura, as pernas já tremiam tanto que não travavam. E se por um lado ver o caminho permite apreciar a paisagem, por outro dá maior percepção do que ainda falta. Passámos por imensos locais que transportavam tudo à cabeça, desde paletes de águas a toros de madeira. Sentimo-nos uns meninos por nos queixarmos só de subir. Na descida encontrámos um casal de portugueses com quem fomos a conversar até à nossa casa. 

 

Chegámos por volta das 9 o que deu para um banho e uma sesta até à hora de ir embora para continuar a viagem de comboio até Ella. O dono da casa arranjou-nos logo um tuk-tuk ao preço que ele nos tinha dito o que foi bastante agradável por não termos de negociar com aquele nível de cansaço.

 

Desta vez já não tivemos a mesma sorte no comboio e não conseguimos lugar. Fui sentada à porta imenso tempo até que ao fim de umas duas horas de viagem lá conseguimos sentar-nos até Ella, onde passaríamos os próximos dias. Não fosse o cansaço e eu não diria que não tinha tido sorte pois viajar na porta do comboio é sem dúvida o melhor sítio para absorver e apreciar toda a paisagem ao longo da viagem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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